domingo, 27 de março de 2016

O que diabos é grunge?

MUDHONEY

É impossível definir o grunge como um movimento musical. Mais fácil colocá-lo próximo à ideia de um espírito de um período, um espectro ou melhor dizendo, um rolo compressor que ao contrário do que  muitos dizem, não parou de funcionar no dia 8 de abril de 1994, quando o corpo de Kurt Cobain foi encontrado em Seattle.

 Não há uma lógica comum no grunge que existe em outros gêneros ao que diz respeito à "árvore genealógica" que guiou naturalmente um grupo de garotos a criar um novo "estilo" musical. Nas bandas que foram batizadas de "grunge" por diversos motivos (mais tarde passaremos por essa parte) é possível notar resquícios das bandas de garagem dos anos 60, do punk setentista, do hardcore dos anos 80, do "rock de arena", do heavy metal e do hard rock dos anos 80. Como uma banda que lembra o Def Leppard pode estar na mesma prateleira de uma banda fortemente influenciada pelos Stooges? Este é o primeiro pilar da falta de lógica da definição musical da cena alternativa da segunda metade dos anos 80 por parte da mídia. Para os músicos, claro, pouco importava. O fim dos anos 80 era marcado pelo domínio dos sintetizadores, baladas românticas e música pop. Porém, nos clubes menores havia uma movimentação que mais tarde chegaria ao grande público sem qualquer tipo de planejamento.

Porém, é necessário um pulo no tempo, não muito distante, para entendermos melhor essa grande abertura para definir o que é "grunge" ou não. Cinco pilares sustentam até hoje a ideia do que é (ou foi) o gênero: 1) Nirvana 2) Pearl Jam 3) Alice in Chains 4) Soundgarden 5) Sub Pop Records. A partir deles, a mídia fez o que quis. Era uma época de grandes mudanças para o mundo, incluindo a indústria musical. O CD era uma realidade, com preços mais baratos, a MTV ganhava força, incluindo a chegada da filial brasileira e, claro, o fim do domínio dos Guns N' Roses. Todo o catálogo da Sub Pop Records, dali pra frente, era grunge, independente da escola de cada banda. Os Dwarves, por exemplo, banda de punk/hardcore de Chicago e os Supersuckers, banda de rock n'roll com influências de country formada no Arizona que se mudou para Seattle no fim dos anos 80, também entraram na dança e agora eram bandas "grunge", contrariando a primeira ideia de que as bandas tinham letras pesadas, depressivas, o visual desleixado e cabelos compridos. 

O sucesso de "Smells Like Teen Spirit", primeiro single de "Nevermind" do Nirvana, lançado no fim de 1991 foi apenas a faísca que faltava para a explosão. O trabalho das bandas era intenso, muitas vezes sustentado graças a Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, donos da Sub Pop. Nirvana, TAD e Mudhoney viajam pela Europa, tocando em clubes horríveis, enquanto outras bandas do selo viajam pelos Estados Unidos e lançavam singles e compactos em vinil. Enquanto isso o L7 e o Coffin Break assinavam com a Epitaph, capitaneada por Mr. Brett, guitarrista do Bad Religion. É um universo muito grande para abraçar, mas são pequenos exemplos como a música alternativa prosperava silenciosamente. Enquanto isso os Pixies, Red Hot Chili Peppers e Jane's Addiction ganhavam atenção em festivais e na mídia especializada.

Essa movimentação chamou atenção de amigos próximos que estavam ligados a outros nichos. Caso do Mother Love Bone e do Alice in Chains. Isso nunca impediu que antes disso essas bandas tenham tocado juntas em algum momento ou qualquer rixa tenha sido criada. Kurt Cobain e Krist Novoselic conheceram Chad Channing, o último baterista antes de Dave Grohl, no último show do Malfunkshun, por exemplo. O vocalista do Malfunkshun era nada menos que Andrew Wood, que mais tarde seria líder do Mother Love Bone. Já Layne Staley e Jerry Cantrell eram "estranhos" quando vistos nos clubes alternativos de Seattle. Ninguém sabia de onde eles tinham saído e como uma banda poderia soar tão redonda como o Alice in Chains. Layne antes de se juntar a Jerry, Mike e Sean, tinha uma banda de glam rock. Já o restante, uma banda de hard rock. Eles sabiam que precisavam estar no local certo e esperar a hora chegar. E chegou. Logo assinaram com a Columbia e lançaram Facelift, que os catapultou para o sucesso com "Man in the Box". Facelift carrega muitas influências de hard rock e metal do grupo. O mesmo pode ser dito do primeiro álbum do Soundgarden, o primeiro a assinar com uma major, com "Louder than Love".

O mesmo aconteceu com o Nirvana, que deixou a Sub Pop para assinar com a Geffen, o Pearl Jam com a Epic e aos poucos, boa parte delas assinou com uma major, incluindo o TAD, que lançou o ótimo Inhaler pela Warner em 1993. O Pearl Jam é um caso a parte. É fruto do encontro com metade do Mother Love Bone com metade do Green River. A outra metade do Green River seguiu com o Mudhoney. Ainda abalados pela a morte de Andrew Wood por overdose, precisavam de um vocalista, até uma demo enviada por um surfista chamado Eddie Vedder chegar nas mãos do grupo. O fato de Eddie chegar já com o trem andando criou algumas reclamações por parte de Kurt Cobain, Tad Doyle e outros. Uma forma de calar qualquer argumento e prestar tributos a Andrew foi o lançamento do álbum do Temple of the Dog em 1991. Curiosamente o álbum só teve reconhecimento por parte da mídia após o sucesso do Pearl Jam em 1992.

O Pearl Jam, muito mais próximo de uma banda de rock de arena que para o lado punk ou metal da coisa chegou ao grande público em 92 com "Ten", que é uma fábrica de singles. Longe do lado punk do Green River e do hard rock do Mother Love Bone, a banda era colocada no "pacote grunge" por associação simples: Seattle, coturnos, cabelos compridos, letras pesadas.  O Pearl Jam também é responsável por boa parte das bandas batizadas de "post-grunge"(chegaremos lá mais tarde).